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Entrevista com Carolina Rossini

Entrevista concedida em 2009 por Carolina Rossini, fundadora e coordenadora do Projeto REA Brasil ao Gpopai (Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação).

Gpopai: Como você avalia o uso atual de recursos educacionais abertos no Brasil?

Carolina Rossini: Para avaliar a existência, desenvolvimento e disponibilização de recursos educacionais abertos uso da seguinte estrutura: primeiramente penso nas diretrizes trazidas pela Declaração de Educação Aberta da Cidade do Cabo, como uma macro-estrutura de definição de educação aberta. Enquanto que, como um segundo passo de análise, e ao observar projetos específicos, desconstruo a missão e as elementos formadores de um certo projeto e comparo tais elementos com a definição de recursos educacionais abertos.

A Declaração da Cidade do Cabo traz e diretrizes fundamentais:

(a) Encorajar a larga participação social na criação, utilização, adaptação e melhoria dos recursos educacionais abertos, abraçar práticas educativas em torno da colaboração, da descoberta e da criação de conhecimento;

(b) Buscar a interoperabilidade legal e técnica dos recursos desenvolvidos. Determinando que os recursos educacionais abertos devem ser livremente compartilhados por meio de licenças livres que facilitam o uso, revisão, tradução, melhoria e compartilhamento por qualquer um. Os recursos devem ser publicados em formatos que facilitem tanto a utilização e edição, e adaptáveis a diferentes plataformas tecnológicas

(c) Em terceiro lugar, governos, conselhos escolares, faculdades e universidades devem fazer da Educação Aberta uma alta prioridade. Idealmente, recursos educacionais financiados pelos contribuintes devem ser abertos. Acreditação e os processos de adoção devem dar preferência a recursos educacionais abertos.

A aplicação desta estrutura a analise dos recursos educacionais disponibilizados pelos governos federal e estaduais e por entidades privadas no Brasil nos leva a concluir que muito já foi feito em relação a encorajar a participação, criação e algo esta sendo feito em relação a encorajar a colaboração e compartilhamento de conhecimento e recursos educacionais. Os mais de 10 projetos analisados no green-paper – como o Portal do Professor, o RIVED, o Projeto Folhas e Livro Público, são a prova disso. Entretanto, raríssimos são os projetos que buscam interoperabilidade técnica e legal – em termos de standards (padrões) técnicos de interoperabilidade de objetos educacionais e plataformas de disponibilização de recursos  diferentes objetos e licenças de direito autoral e software abertas que permitem a congregação de recursos, o que mostra claramente que a falta de uma política única ou uma melhor interlocução entre entes (principalmente públicos) ao redor da disponibilização de recursos educacionais abertos pode significar a ineficiência e a não utilização de recursos, ou mesmo “morte” de projetos nos quais o governo investiu milhões e milhões de reais e muito tempo.  Desta forma, creio que o Brasil esta a caminho de satisfazer a primeira diretriz, mas estamos longe de realizar as indicações da segunda e terceira diretriz.

Agora, quando dissecamos projetos que tem como missão a ampla e inclusiva disponibilização de recursos educacionais para a população brasileira o problema de não interoperabilidade e falta de uma posição clara dos entes públicos é ainda mais clara. Segundo a definição mais amplamente adotada, recursos educacionais abertos  significa a provisão recursos educacionais – que podem ser de simples unidades de conhecimento como fotos, a capítulos de livro, softwares educacionais, jogos, ou mesmo um curso completo e as metodologias didáticas de aplicação e uso de tais recursos – permitida e promovida pelas tecnologias da comunicação e informação, para consulta, uso, adaptação por toda comunidade de usuários possíveis, não somente aqueles vinculados a uma educação formal.  Este conceito aponta claramente para três elementos de design de um recurso educacional que se propõe a ser aberto: o conteúdo, a plataforma e a administração dos direitos de propriedade intelectual que recaem sobre um certo recurso de forma que o detentor dos direitos autorais ou de software digam de forma clara e de antemão quais os usos autorizados. Como o próprio conceito traz esses usos dizem respeito a possibilidades de – utilizando as palavras da Lei Brasileira de Direito Autorais – reprodução, distribuição e produção de obras derivadas (como traduções ou adaptações para diferentes plataformas tecnológicas), sempre respeitando os direitos morais do autor. Entretanto o que se vê nos projetos Brasileiros é um design precário e incompleto na grande maioria dos projetos avaliados.

Talvez uma das primeiras coisas que deve ser feita em relação a isso é uma ação  de mão dupla de baixo para cima e de cima para baixo. Numa ação de baixo para cima, ações de educação sobre os  uma forma mais positiva de uso da propriedade intelectual em prol ao compartilhamento de conhecimento, direitos dos professores, alunos e bibliotecários e  compreensão do que significa participar da sociedade do conhecimento. E uma ação de cima para baixo de unificação das políticas de elaboração e disponibilização de recursos educacionais.

Por fim, creio que três são as coisas para pensar e que podemos concluir em relação a isso tudo:

  1. Sistemas abertos e redes abertas podem criar novas formas de inovação/criação;
  2. Novas formas de inovação/criação podem ser ajudadas, ou prejudicadas, por políticas publicas e institucionais e
  3. Brasil está experimentando com idéias de colaboração e abertura, mas estamos somente no começo.

Gpopai: A precariedade da infra-estrutura de educação no Brasil impacta a implementação e ampla adoção de REAs pela comunidade?

Carolina Rossini: Sim e não. Claro que um amplo acesso as tecnologias da informação e comunicação permite uma mais rápida inclusão de professores e alunos na sociedade do conhecimento. Entretanto isso também só é verdade quando a metodologia de educação traz em a idéia de “trabalhar de forma conjunta”, “compartilhar conhecimento com pessoas do mundo inteiro” e “acessar recursos advindos de todo mundo”.  Por isso, afirmo que devemos pensar a inclusão digital de uma forma que possibilite que interações colaborativas (indivíduos como cidadãos) e não só transações (indivíduos como consumidores) sejam possibilitadas por essa metodologia educacional de inclusão digital.

Entretanto, sabemos que o Brasil tem grande defasagem de acesso as TICs, como a Internet, e que essas defasagens são ainda mais gritantes quando quebramos os dados por camadas sociais ou regiões do Brasil, mas também sabemos que o governo possui metas agressivas de conexão da rede pública de educação. O NIC.Br publica dados sobre isso todos os anos e o IBGE também ampliou suas pesquisas para tal questão. Ou seja, muitos estão e ficarão excluídos dessa possibilidade por longo tempo ainda. Também é importante lembrar o interessante fenômeno é o papel das lanhouses em inclusão digital – mas como esse não é nosso foco, não vou me estender nisso.

Desta forma, há que se pensar em como trazer a idéia de acesso, colaboração, remix, adaptação de recursos educacionais para a sala de aula que não esta incluída digitalmente. E projetos em outras partes do mundo já mostram que isso é possível. Na Índia distribui-se livros em caixas de biscoito que chegam a mais locais que pelo próprio correio, metodologias construtivistas já trazem em seu ceio a questão da colaboração. Ou seja, desde cedo considero possível incutir em nossos jovem uma visão positiva sobre as vantagens de “aprender de forma conjunta” e “ser criativo”, “não ser passivo no recebimento de conhecimento”. Muitos chamam tal currículo de alfabetização para o digital. Ou seja, creio que a formação de indivíduos para a cultura comunitária da Internet pode e deve acontecer mesmo sem acesso imediato e constante a Internet.

Gpopai: Quais são os ganhos educacionais possibilitados pela adoção de recursos abertos?

Carolina Rossini: Creio que os ganhos são muitos, mas diversos em relação aos atores envolvidos.  Uma didática mais inclusiva valoriza o professor e os alunos como atores que participam ativamente da criação, aprimoramento e adaptação do conhecimento embutido em recursos educacionais a suas necessidades locais e cotidianas, em paralelo a possibilidade de colaboração com pessoas do mundo inteiro, o que garante uma visão global da educação e do conhecimento. Ademais, gera independência do professor de escolher recursos centrais ou recursos complementares que são mais adequados a certo grupo de alunos num determinado momento, além de permitir a mais rápida produção, correção e distribuição de novas versões de recursos mais atuais e corretas.

Aqui afirmo que os “olhos” de muitos geralmente funcionam melhor que os “olhos” de poucos.  E tal “mantra” já se provou verdadeiro em áreas de produção colaborativa como o software livre, ou na resolução de complexos problemas científicos via projeto Innocentive, ou pelo exemplo constantemente citado da Wikipedia.

Tais recursos também possibilitam a inclusão de uma camada da população que não tem acesso, por uma série de razões a educação formal ou de uma camada de população que gosta de estudar independentemente do local, classe, ou idade. Eles também tem acesso a tais recursos  educacionais quando esses são verdadeiramente abertos. E quando utilizo a palavra “aberto” refiro-me, reafirmando o dito anteriormente, a autorização pelos detentor de direitos de propriedade intelectual de acesso, uso, adaptação e circulação de tais recursos.

Gpopai: Você vê contradições na criação de recursos educacionais fechados financiados pelo Estado (por exemplo, os materiais multimídia produzidos pela Fundação Vanzolini para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, ou os materiais produzidos por professores que trabalham em tempo integral para uma instituição pública)?

Carolina Rossini: Certamente. Tais materiais são produzidos com base em dotação do orçamento público. E de onde vem tal orçamento? Do pagamento de impostos realizado pela maioria dos cidadãos brasileiros. O pagamento de salários de professores e servidores em tempo integral faz parte do orçamento das universidades publicas que são financiadas por “dinheiro publico” proveniente de impostos.  Vale lembrar ainda que a Constituição determina que cultura e educação são direitos de todos. Desta forma, acredito que o Estado tem a obrigação de oferecer oportunidades formais (que aqui significa a inscrição formal de alunos a cursos, geralmente após um exame ou algum procedimento formal de inscrição)  e informais (sem a necessidade de processos formais de inscrição) de aprendizagem, potencializando, assim, o investimento publico. Muitos questionam como medir esse “aprendizado” informal possibilitado a todos via recursos educacionais abertos…aqui tem se sugerido a realização de exames voluntários dos inscritos ou algum processo de registro.

Gpopai: Qual é a relação dos REAs com as licenças livres e com os softwares livres?

Carolina Rossini: Software livre inspirou muitos movimentos colaborativos em termos das liberdades permitidas e da possibilidade de colaboração e desenvolvimento voluntário de um bem que traz em si uma conhecimento. Ademais, software livre mostrou como possível o desenvolvimento de modelos de negócio criativos baseados em conteúdo aberto. Creio que todos temos muito a aprender com as experiências de software livre e o reconhecimento de que as capacidades estão distribuídas socialmente, e muitas vezes em locais inesperados. Entretanto, para que tais capacidades se realizem, há que se abrir a possibilidade de participação e garantir o acesso aos meios de produção desses bens portadores de conhecimento.

As licenças livres ou abertas, por sua vez, são a base essencial tanto do software livre como dos recursos educacionais abertos. As licenças do Creative Commons são licenças livres que tornaram-se “standards” legalmente aceitos e executáveis judicialmente. Por meio de tais licenças, que nada mais são que licenças voluntarias de direito autoral, resguardadas pela nossa Lei de Direitos Autorais e por tratados internacionais, o autor ou detentor dos direitos autorais resguarda alguns direitos para si e fornece de antemão a sociedade alguns de seus direitos. Por isso a frase “alguns direitos reservados”. Desta forma, quando um usuário acessa um certo conteúdo ou software licenciado por licenças livres e abertas  ele já saberá o que poderá fazer com aquele conteúdo, em termos dos direitos de acesso, reprodução, distribuição e produção de obras derivadas. Para recursos educacionais abertos, de forma a garantir sua plena interoperabilidade jurídica e, desta forma, técnica, recomenda-se o uso da licença Creative Commons Atribuição, a mais permissiva das licenças CC. Entretanto, já se observa o uso da Creative Commons Atribuição – Não comercial em projetos que possuem fins lucrativos, como uma forma de proteger-se de competidores. O mais claro exemplo é o modelo de negócios aberto adotado pela inovativa Flat World Knowledge que resumidamente permite o acesso aberto e a alteração de livros online e cobra por cópias impressas (printing on demand) e alguns serviços ao redor de customização de materiais.

Gpopai: No seu Green-Paper, você recomenda que a lei de copyright seja reformada, para que sejam ampliadas e formalizadas as exceções e limitações relacionadas à educação. Qual o impacto da atual legislação sobre os REAs? Que mudanças na lei de direitos autorais facilitariam a adoção de REAs?

Carolina Rossini: Sim, é verdade, recomendo a ampliação de exceções e limitações a lei de direitos autorais para fins educacionais, não comerciais. A lei Brasileira, quando comparada a outras, como a americana, é muito restritiva. Por exemplo, escolas de cinema não podem passar filmes essenciais a seus alunos sem infringir a lei….bibliotecas ou fotocopiadoras não podem disponibilizar copias de livros raros, não impressos no Brasil ou esgotados. E assim por diante. Ha que se repensar a lei para atender os fins constitucionais de acesso a cultura e educação. Tenho muita esperança no processo atual de revisão da lei, processo que primou pela ampla participação social e representação de interesses. Há que se permitir o uso de conteúdo para fins educacionais não comerciais.

Os REA, na situação da nossa lei, servem como um “tapa-buraco”, pois se utilizam da lei para permitir, por meio de licenças autorizadas pelas lei, usos que estão previstos em lei, mas que estão centralizados na mão do autor.  O autor permite que a sociedade utilize tais direitos ao vincular o conteúdo educacional que produziu a uma licença aberta e facilitar o acesso por meio de plataformas tecnológicas ou formas inovativas de distribuição.  Aqui o “privado” (mesmo que financiado por dinheiro público de forma direta ou indireta) autoriza o público a utilizar aquele conhecimento embutido no recurso educacional.

Mas preciso afirmar que, mesmo com essa função imediata de “tapa-buraco” numa situação de lei restritiva como a brasileira, os REA tem uma função muito maior: a função de clarificar e fornecer segurança jurídica ao acesso e uso de recursos educacionais, ademais da função de colocar no centro do debate a questão de acesso a recursos financiados por dinheiro publico.

Gpopai: Qual sua avaliação da Conferência sobre Recursos Educacionais Abertos?

Carolina Rossini: Creio que a conferência foi um sucesso maior do que eu podia imaginar. A participação por assídua e interessada. As apresentações realmente cultivaram o debate e foram capazes de mostrar todos os lados envolvidos na questão: o lado jurídico, o lado técnico, o lado de respeito as necessidades locais, o lado da cultura colaborativa e possibilitadora de inovação. Bem… posso seguir aqui infinitamente. Creio que um dos pontos também relevantes é a abertura dos olhos da comunidade política –representantes do congresso, do Ministério da Educação e das Secretarias de Educação a uma discussão mais complexa sobre a estruturação e planejamento de projetos educacionais mais inclusivos e realmente abertos e a necessidade de garantir-se amplo acesso a recursos educacionais financiados por dinheiro publico. Creio que algo muito importante também foi o estabelecimento de canais de comunicação entre projetos nacionais e internacionais e entes do governo e da sociedade.

Gpopai: As recomendações feitas no evento também podem impactar a Conferência de Educação?

Carolina Rossini: Essa é uma de minhas grandes esperanças e creio que conseguimos uma boa abertura via representantes do congresso envolvidos em tais discussões. A Conferência Nacional de Educação, que vai ser realizada no começo de 2010 representa a culminação de um debate social amplo sobre as possíveis necessidades de reforma da educação. Encontros regionais já acontecem e estão abertos a população. Entretanto, o que se percebe é  que tais debates ainda giram em torno de temas tradicionais – mas necessários. A parte de tecnologia entra por meio do debate da inclusão digital e da educação a distancia. Mas nenhum desses tópicos apresenta de forma clara o debate sobre recursos educacionais abertos e a oportunidade de revolução de acesso e metodologia que esses trazem. Espero que o trabalho realizado até agora, por meio do projeto REA Brasil e fomentado por uma comunidade que ganha cada vez mais corpo e expressão, abra um espaço oficial de debate sobre REA na CONAE e na pauta de educação Brasileira.

A versão em pdf está disponível aqui.

05/02/2012 at 23:10 Deixe um comentário

Entrevista com Tel Amiel

Tel Amiel, pesquisador do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED) na UNICAMP e coordenador da comunidade Educação Aberta, fala ao blog REA sobre a sua atuação com REA, Educação Aberta e o Caderno Recursos Educacionais Abertos para professores.

Confira a entrevista aqui.

21/11/2011 at 14:45 Deixe um comentário

Editoras no blog rea.net.br – Os livros que queremos na sociedade da informação

Quando se fala em abertura de conteúdos publicados, alguns obstáculos surgem rapidamente: o primeiro é a legislação brasileira no que diz respeito aos direitos autorais. A maior parte dos materiais publicados está fechado por uma lei bastante antiquada, que dificulta sua utilização e vai na contramão dos princípios de compartilhamento e remix facilitados pela internet. A longa e difícil reforma da Lei de Direitos Autorais, que contou com grande participação social, antes da centralização sob o novo corpo político do Ministério da Cultura, demonstra claramente essa inadequação da letra da lei com a realidade da sociedade da informação. Desta forma, pensar em como inovar nesse contexto, é um desafio que pode ser interessante também ao mercado editorial. Caminhar rumo à publicação cada vez maior de conteúdos abertos, dentro da ideia de modelos de negócios abertos que incorporem REA, não é algo facil, mas significa o reconhecimento de que mudanças estão acontecendo. Caso as editoras não as percebam ha tempo, corre-se o risco de ver acontecer no mercado editorial o que aconteceu no mercado de música.
Esta apresentação, feita para um grupo estratégico da editora Moderna no final de 2010, discute todas essas mudanças, o mercado de livros e modelos que ja têm se mostrado de sucesso ao adotar ideais REA. Por isso, este blog trará, a partir de agora, uma série de entrevistas com editores abordando essa e muitas outras questões adjacentes, de modo que seja possível registrar opiniões e dificuldades e ampliar as discussões. Assim, acreditamos que é viável imaginar soluções que tragam benefícios e minimizem impactos negativos em quaisquer direções, além de assegurar o direito mais fundamental de acesso ao conhecimento por meio de acesso a recursos educacionais de qualidade.
O primeiro entrevistado é Jorge Sallum, da editora Hedra.Marcella Chartier – Como as tecnologias digitais, principalmente a Internet e a expansão dos tablets, impactaram nas estratégias de sua editora (positiva e negativamente)?Jorge Sallum – Qualquer mudança que o mercado editorial enfrente hoje está relacionada com a internet. A internet permite o acesso imediato ao livro, no tempo e no espaço, e é isso que os editores, em sua essência, sempre procuraram. Editores, obviamente, cujo espírito remonta ao iluminismo, quando a luta se dava para imprimir, distribuir e divulgar qualquer obra. Foi a luta pelo acesso ao livro, e não pelo livro em si,  que removeu montanhas desde as reformas religiosas protestantes. E a rigor, os editores mais identificados com a palavra do que com a tinta e o papel, com a criação de novos espaços públicos de reflexão, discussão, ensino, entretenimento e qualquer forma de leitura, enfim esses editores deveriam abandonar o copyright  e passar a pensar em como fazer negócios de forma diferente, pensando mais no serviço do que no controle, na ampliação da informação e, obviamente, do seu mercado.

Há no entanto um grande paradoxo nisso tudo. Os e-books e seus dispositivos de leitura e, por outro lado, as próprias redes de acesso, são mecanismos formidáveis de controle. Fazer dinheiro com livros eletrônicos através das grandes corporações é interessante num primeiro momento, mas é algo que já não tem mais o vigor inicial da internet, e não tem mais o potencial da reprodução infinita que é fundamental para o capitalismo. Sinto que os editores não perceberam que eles passaram de divulgadores e criadores de caminhos de acesso a meros controlares de pastas virtuais, cuja senha principal, pelo que tudo indica, ficará na mão de três corporações. E que se sujeitar a este esquema é perder o principal campo de trabalho do editor que é a criação de redes de circulação de informação. Sinto que os editores estão caindo naquele conto do vigário “ganhe dinheiro trabalhando em casa”. Enfim, enquanto esse paradoxo não for resolvido, os tablets vão funcionar muito bem para nichos de mercado das grandes empresas de comunicação e publicação ou para autores anônimos que acreditam no poder da autopublicação, mas que só ganham destaque quando falam alguma obviedade dentro de uma caixa de eco. Esse paradoxo só se resolverá se começarmos a discutir primeiro o que são as licenças livres para depois enfrentarmos os problemas tecnológicos.

Marcella Chartier – Quais as perspectivas futuras em relação aos e-books no catálogo/na estratégia de vocês?  

Jorge Sallum – Mínimas. Da forma que se apresenta, o Brasil realmente será apenas a periferia de uma rede comercial de arquivos, sem controle de como gerar mercado e informação de qualidade, isto é, divulgação e vulgarização de pesquisa, literatura significativa, crítica política etc. O livro eletrônico, por si só, não significa nada disso. Pois uma guerra fetichista sobre o melhor tablet, se com brilho ou sem brilho, se com 3G, se com internet, enfim, é que imperará. E os repositórios de cada empresa detentora desse quadro de luz chamado tablets permanecerão fechados para as estratégias comerciais hipercentralizadas de cada uma dessas empresas.

Marcella Chartier – Como a cópia de livros impacta em seu catálogo?  

Jorge Sallum – Sou a favor da cópia de livros. Não acredito que a fotocópia substitua um livro e não acho que um aluno seja capaz de comprar todos os livros que precise durante sua longa formação.  Por outro lado, vejo que enquanto os editores acadêmicos estão preocupados em garantir que ninguém leia sem autorização seus livros, as universidades lançam mão do acesso a grandes repositórios como o Jstor, oferecido pelo CNPq. E temos aí um novo paradoxo. Ao mesmo tempo em que a comunidade acadêmica (que é ao meu ver, no Brasil, o único grupo significativo que de fato lê em formatos digitais) tem acesso aos melhores artigos, sabemos que por melhores que sejam as pesquisas brasileiras, raramente elas poderão ser lidas em tais repositórios. E o pior é que os professores se desprezam a si mesmos e as agências de pesquisa como a Fapesp se pautam pela publicação fora do Brasil. A questão é muito complexa.  Para entendê-la, talvez valha lembrar como o MIT justifica seu canal MIT World: divulgar as aulas pela internet é a maneira mais barata de fazermos circular as nossas ideias.” Não basta acusar o MIT, por exemplo, de “imperialista” digital, mas de criar, como editores, juntamente com o poder público, as agências de pesquisa, as universidades, políticas verdadeiras para a circulação das nossas ideias. A questão, portanto, sobre papel versus digital, sobre cópia e mercado esconde realidades muito maiores do que o mercado editorial, e se os editores não levarem a sério que a principal mercadoria deles são as ideias, é melhor mesmo que eles não existam.

Marcella Chartier – Existem projetos nos quais vocês utilizam ou pensam em utilizar licenças abertas ou que são identificados como recursos educacionais abertos? Se sim, quais são eles e como estão idealizados?

Jorge Sallum – Sim, temos a intenção de produzir uma linha de livros didáticos abertos,  sob licenças CC-BY ou CC-BY-NC. Nossa intenção é fazer livros e ferramentas abertas que permitam a reedição do material coletivamente.

Marcella Chartier – Quais as principais dificuldades de vocês nesse processo?

Jorge Sallum – Como disse acima, há muita discussão sobre tecnologia e muito pouco sobre os aspectos jurídicos dessas novas licenças. Há muito temor por parte das editoras e muita política equivocada em torno das licenças abertas, como a que ocorreu
no MinC
. Nós não pretendemos fazer uma revolução e sim estabelecer um negócio que utilize das potencialidades das novas tecnologias de comunicação e informação. Estabelecer o campo de atuação do editor na discussão sobre recursos educacionais abertos, por sua vez, não é simples, pois ao fazermos isso apresentamos um modelo de negócio e não apenas uma contribuição.
Marcella Chartier – De que forma vocês poderiam ser ajudados nisso?

Jorge Sallum – Nós já temos a agradecer a muita gente que se prestou a nos escutar e nos ensinou bastante. Trabalhamos num plano de negócio amplo, que só se viabilizará se conseguirmos editar livros para a rede pública de ensino com a ajuda da sociedade civil, de maneira colaborativa. É algo ambicioso, reconheço, e para isso precisamos de muita colaboração, parceria e financiamento. Precisamos envolver prefeituras, organizações não governamentais, programadores e principalmente professores. E estamos trabalhando para isso. A Hedra se associou com a Kow, uma empresa de TI com ênfase em automação editorial, e pensamos agora em como fazer com que um livro didático possa ser editado de maneira colaborativa e em rede. Também procuramos nos associar a escritórios de produção de material didático que atuam para as principais editoras, para que esses livros tenham exatamente a mesma aparência e qualidade do que há no mercado. Por outro lado, temos procurado nos inteirar da discussão sobre educação democrática e autogestão, pois acreditamos que haja muito em comum entre a forma de pensar material didático assim e uma educação descentralizada.

Marcella Chartier – Existem casos de autores que já desejam/propõem a publicação de seus títulos em novos formatos/novas licenças? Se sim, trata-se de um número expressivo?

Jorge Sallum – Fizemos recentemente o “Minidicionário Livre da Língua Portuguesa”, com o professor Mourivaldo Santiago-Almeira e sua equipe. A princípio tivemos que explicar em detalhes do que se tratava. A ideia foi tão bem acolhida que em seguida fomos convidados pelo linguista Gabriel A. de Araújo para fazer o primeiro dicionário de são-tomense, língua crioula africana de base portuguesa e que nunca foi dicionarizada, apesar dos seus mais de cem mil falantes. E ficou entendido de imediato que a licença aberta garantiria o financiamento institucional internacional e sua ampla circulação. Julgo este um caso bastante emblemático. Mas em geral não vemos resistência da maioria dos autores. Colocamos nossos livros no Googlebooks há muitos anos e está claro que para vender livros é preciso que as pessoas saibam que eles existem.

Marcella Chartier – De que forma a editora que você representa visualiza o futuro, tendo em vista o contexto atual de cópias de livros na internet e o questionamento da lei de direitos autorais brasileira?

Jorge Sallum – É lamentável que o diálogo sobre o direito autoral tenha sido interrompido. O Brasil tinha a chance de deixar de ser periferia em algo fundamental, que é a discussão jurídica sobre propriedade intelectual.  Projetos realmente inovadores poderiam se beneficiar disso, principalmente na educação, grande déficit do país. No momento, acredito, que as discussões sobre o vértice tecnológico são bastante conservadoras e tendem a levar governo e sociedade para mais gastos inúteis em dispositivos falaciosos. Sou muito simpático ao Plano Nacional de Banda Larga e, particularmente, ao ProUCA, que pretende dar computadores para as crianças. Mas seguramente não estamos falando da mesma coisa quando pensamos em tablets, em formatos de ebooks etc. Esta discussão caminha estranhamente separada, e completamente apartada das propostas pedagógicas mais interessantes, apartada da descentralização da educação promovida desde o princípio dos anos 1990 pela criação do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), responsável pela municipalização do ensino. Ou acreditamos que basta jogar um tablet na mão das crianças e o país se refaz?

Marcella Chartier – Como pretendem se ajustar a essa nova configuração e como se preparam para ela?

Jorge Sallum – Nós não acreditamos na grande onda do ebook. Isto é ideológico e simplista.  Não há necessidade de se preparar para a grande mudança corporativa e centralizadora. É preciso pensar agora em liberar conteúdo e voltar às origens do mercado editorial, que é a criação de mercado, mas também de sociedade livre, informada, capaz de discernir entre uma lei, um discurso, de se identificar com os lugares literários, de ter acesso à pesquisa. As livrarias são lugares de elite no Brasil. Nunca será um lugar de convívio dos milhões que começam a consumir e também a estudar. Mas o livro, seja lá em que formato, há de encantar as pessoas, e há de ganhar um balcão nem que seja virtual. Monteiro Lobato acreditava muito no livro da venda, no que chamamos hoje de “ponto alternativo”. Eu acho que não temos ainda uma fórmula específica para o Brasil, mas certamente,  ela passa pela internet.

Marcella Chartier  – Vocês buscam soluções de negócios se inspirando em casos de outras editoras que estão experimentando com modelos abertos, tanto do Brasil quanto de fora (como a Flat World Knowldge nos EUA)? Se sim, que casos/soluções enxergam como de sucesso?

Jorge Sallum – Não nos identificamos com a Flat World Knowldge, que julgamos bastante inovadora. Isto porque o livro didático, no Brasil, é algo tão particular quanto a literatura de cordel. É preciso entender sua história, a história dos grandes programas de aquisição do livro didático, que estão entre as três maiores compras de material didático do planeta. É preciso entender o que eram os cursinhos e o que são  os sistemas de ensino. E principalmente porque o ensino médio e fundamental  está tão separado da produção acadêmica. Acreditamos que necessariamente precisamos ser tradicionais  para inovar, isto é, fazer livros e reafirmar sua utilidade, e demonstrar que um livro é conteúdo estruturado em equipe, e que isso deve ser feito localmente, e pode servir às estruturas já existentes.

Marcella Chartier – De que forma vocês avaliam a posição dos consumidores nessa nova configuração? Existe um canal aberto de comunicação entre vocês? As colocações deles são consideradas? Ou, ainda, existem pesquisas que trazem essas opiniões e que delimitam, de alguma forma, as direções tomadas pela editora?

Jorge Sallum – Há pouca pesquisa de mercado no Brasil e quando elas são financiadas pelos sindicatos, tendemos a desconfiar. Há muitos anos o BNDES, no período do Carlos Lessa,  fez uma ampla radiografia do mercado e propôs uma política de financiamento das editoras, que foi logo esvaziada. Os dados eram alarmantes, com perdas anuais de 20%, que foram  compensadas de certa forma por programas de aquisição de livros para bibliotecas como o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), criado 1997. Recentemente, a Fipe tem organizado uma recolha de dados, sob a coordenação da prof. Leda Paulani,  da FEA, mas o fato é que temos ainda muito pouca informação do mercado, que trata informações estatísticas e perfis de leitores com total leviandade. Com isso,  o consumidor do livro para nós é uma abstração bastante imprecisa.

Marcella Chartier – Como vocês acham que uma possível aprovação do PL-REA, em trâmite no Congresso Nacional, impactaria as vendas para o governo? (resumindo, o projeto define que o material didático comprado pelo governo precisa ser publicado na internet sob licença livre)

Jorge Sallum – Nós somos grandes entusiastas deste projeto. Ele é algo que provavelmente tornará  viável a descentralização da compra num futuro próximo, garantindo qualidade  e comprometimento dos atores envolvidos na franja mais distante da educação, que são os próprios professores. Será necessário pensar em alternativas para este material a ser licenciado pelo governo e é o que pensamos em fazer. Caso contrário, licenciar e reimprimir o mesmo material todos os anos seria algo como publicar o mesmo jornal uma semana seguida.

23/08/2011 at 16:51 2 comentários

Comunidade REA: entrevista com Barbara Dieu

Nosso blog tem agora uma nova série, dedicada aos membros da comunidade REA Brasil. Publicaremos entrevistas nas quais eles poderão contar como se envolveram com a ideia, o que produziram e produzem a respeito, como imaginam o futuro dos recursos educacionais abertos em nosso país etc. Pra começar, entrevistamos a educadora Barbara Dieu que, além de nos dar um testemunho muito interessante de trajetória, é um dos membros mais ativos da comunidade. Leia a entrevista aqui.

 

23/02/2011 at 13:03 1 comentário

Repórteres Jovens na Campus Party: Vivência Escolar

Especial por Prof. Christian Sznick – EMEF Prefeito Adhemar de Barros, Campo Limpo, SP

A Campus Party vem movimentando uma grande quantidade de interessados, desde blogueiros, curiosos, desenvolvedores de softwares e programas educacionais.  Porém um galera diferente novamente estará participando.

Os alunos do Projeto Imprensa Jovem – Programa Ondas no Rádio, desenvolvido por Professores da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, estarão realizando a cobertura do evento e publicando reportagens, fotografias, editando filmagens. Todo este material estará disponivel no Blog das Escolas participantes e centralizados também no Twitter e Blog colaborativos, mantido pela equipe de Educomunicadores da Rede Municipal.

A cada dia alunos divididos em várias equipes estarão responsáveis pela publicação de novas informações. Uma estrutura de redação está preparada para receber as equipes no estande da Prefeitura de São Paulo.

A experiência repete o sucesso de coberturas realizadas em 2010, na Campus Party 2010, na Bienal Internacional do Livro, Conferência Municipal de Educação, Valeu Professor  além de diversos outros eventos e atividades em que os alunos estiveram presentes dentro e fora de suas Escolas.

A idade dos alunos praticamente não tem limites. Existem equipes com alunos da Educação Infantil, Educação Especial (surdos), alunos do Ensino Fundamental.

A Campus Party 2011 será também um excelente momento dos alunos poderem tomar contato com atividades e tecnologias. Certamente novidades serão levadas para o início das aulas. Sim pois neste momento os alunos ainda estão em férias e a participação espontânea e ativa contribui np desenvolvimento do protagonismo infanto juvenil na prática, desenvolver as competências e habilidades escritora e leitora através das mídias, objetivos do Projeto Imprensa Jovem. 

Este ano o evento no Brasil será realizado no Centro de Exposições Imigrantes, na Zona Sul da cidade de São Paulo, entre os dias 17 à 22 de janeiro de 2011. As 6500 vagas para participação do evento estão já completamente esgotadas.

Acompanhe as equipes e as Escolas envolvidas para cada dia na Campus Party:

18/01 – DRE Campo Limpo e DRE Santo Amaro

EMEF Prefeito Adhemar de Barros 

EMEF – Cacilda Becker –

19/01 – DRE Freguesia do Ó

EMEF  – Zilka Zalaberry

EMEF – Des.  Sebastião Nogueira

EMEF – Roberto Patricio

EMEI Guia Lopes

EMEF – Ten. Aviador Frederico Gustavo dos Santos

22/01 – DRE Pirituba

EMEF – Ministro Anibal Freire

EMEF – Monteiro Lobato

EMEF – Julio de Oliveira

EMEF – Jairo de Almeida

EMEF – Silvio  Portugal

EMEF – Renato Antonio Chechia

 21/01 – DRE Butantã

EMEF Roberto Mange

EMEF Conde Luiz Eduardo Matarazzo

22/01 – DRE Itaquera

CEU Azul da Cor do Mar

 

14/01/2011 at 15:33 2 comentários

Entrevista: Biblioteca Digital de Ciências da Unicamp!

O REA.net.br da inicio a uma serie de entrevistas focadas em experiências nacionais e internacionais com recursos educacionais abertos Nessa semana, nosso entrevistado é o Prof. Eduardo Galembeck, da UNICAMP, membro do comitê de educação da IUBMB, co-editor da Revista Brasileira de Ensino de Bioquímica e Biologia Molecular, editor da Biblioteca Digital de Ciências e membro do corpo editorial da Biochemistry and Molecular Biology Education. Eduardo fala com o Rea.net.br sobre a Biblioteca de Digital de Ciências (BDC) da UNICAMP


Rea.net.br: Como nasceu a idéia da Biblioteca de Digital de Ciências (BDC) da UNICAMP?

Prof. Eduardo: A BDC é um projeto do Laboratório de Tecnologia Educacional (LTE) do departamento de Bioquímica – IB – UNICAMP. Acumulávamos uma série de softwares e CDs com sites próprios, o que estava ficando difícil de gerenciar. A idéia da BDC foi agregar em uma única plataforma toda produção do LTE, expandindo ainda para permitir a submissão de material de terceiros mediante aprovação por um sistema de avaliação por pares. Surgiu por uma necessidade, pois não achamos nenhum ambiente aberto para publicação do nosso conteúdo que fosse totalmente compatível com nossas necessidades.

Rea.net.br: Explique para os nossos leitores qual a missão da Biblioteca de Digital de Ciências (BDC) da UNICAMP? Quem vocês pretendem atingir com a disponibilização desses recursos educacionais?
Prof. Eduardo: A missão da BDC é oferecer a autores um ambiente para publicação de conteúdos digitais e oferecer ao usuários conteúdo de qualidade. Nosso público é composto por professores e estudantes da educação básica ao ensino superior, além pessoas não envolvidas com ensino de ciências com interesse nos conteúdos publicados na BDC.

Rea.net.br: Qual foi a reação da UNICAMP em relação a BDC?
Prof. Eduardo: Apesar de ser um portal já bastante consagrado, que atinge o todas as regiões do Brasil e muitos países do exterior, principalmente os de língua portuguesa, a BDC é, e deve continuar sendo, um projeto de um grupo de pesquisadores e não um projeto de iniciativa institucional ou governamental. A repercussão tem sido excelente entre os interessados, surgiram demandas específicas, que foram atendidas com a criação sub-áreas com editorias próprias, como o Geociências Virtual, sob responsabilidade de pesquisadores do IG-UNICAMP e o GAMA (Guia de Arvores da Mata Atlântica), e sob responsabilidade de pesquisadores do IAC. O Sistema BDC também é usado pela SBQ em sua publicação mais recente, a Química Nova Interativa, mas mantido em portal próprio, de forma independente.

Rea.net.br: Quem contribuiu e pode contribuir para a BDC? De onde vem o conteúdo que é depositado na BDC?
Prof. Eduardo: A BDC é um ambiente de publicação de conteúdos digitais aberto a quem queira contribuir, desde que seja autor e detenha os direitos do material a ser enviado. A maior parte do conteúdo da BDC ainda é de produção própria do LTE, mas vários materiais depositados foram enviados por não vinculados ao LTE.

Rea.net.br: Qual o modelo de financiamento da BDC?
Prof. Eduardo: A BDC foi desenvolvida e posta em operação principalmente com recursos próprios do laboratório e com trabalho voluntário de pesquisadores e alunos. Indiretamente alguns projetos do laboratório, financiados com recursos públicos também resultaram em grandes avanços à BDC, destaco entre as principais fontes de financiamento que contribuíram com o desenvolvimento da BDC, bolsas do CNPq e UNICAMP e financiamento do MEC e MCT para produção de conteúdos digitais.

Rea.net.br: Notamos que alguns materiais disponibilizados na BDC são licenciados por Creative Commons. Isso vale para todos os materiais? Qual a licença escolhida? Por que?
Prof. Eduardo: O autor de cada material que opta pela licença a ser adotada. No caso do material desenvolvido pelo laboratório, adotamos a CC-by-nc, que também é a licença estabelecida pelo MEC para os produtos por eles financiado.

Rea.net.br: Como foi o processo de adoção do Creative Commons? Vocês encontraram alguma dificuldade? Os professores e autores apoiaram a iniciativa?
Prof. Eduardo: Os primeiros produtos publicados com a licença CC foram por sugestão de um colaborador quando passamos a publicar os códigos fonte de softwares. A idéia era inclusive de receber obras derivadas para publicação na BDC com um sistema de controle de versão para as obras derivadas. Esse sistema ficou no ar por quase um ano sem recebermos nenhuma submissão de obra derivada. O sistema acabou sendo retirado para ser refeito e introduzido futuramente, mas ainda não foi implementado. A adoção de CC não é uma imposição do portal, mas foi adotada por outros colaboradores. O maior problema que vejo na CC é na parte de software e direito de imagem, acabamos por colocar apenas o selo. De maneira geral fica complicado a atribuição da licença em materiais multimídia, o usuário precisa se dar conta que tem partes da obra que têm restrições. Para um texto, uma foto de um objeto tudo bem.

Rea.net.br: Existe alguma vinculação entre a Bdc e outras iniciativas de recursos educacionais abertos? E que forma a BC pode contribuir para esse movimento?
Prof. Eduardo: Vários dos materiais publicados na BDC deverão aparecer em breve no Portal do Professor do MEC e no Banco Internacional de Objetos Educacionais. Além dos conteúdos financiados pelo MEC que são publicados na BDC sob a licença CC não existe relação formal com outras iniciativas de recursos educacionais [abertos]. A BDC pode contribuir tanto ambiente de publicação de conteúdo, com o conteúdo publicado e ainda com a tecnologia do portal, já adotado por outras iniciativas sitadas anteriormente.

Rea.net.br: Você acredita ser a BDC um modelo a seguir para compartilhar o conhecimento desenvolvido na universidade publica?
Prof. Eduardo: O conhecimento compartilhado na BDC é ainda pouco valorizado na universidade pública e na comunidade acadêmica, que valoriza de forma exagerada a publicação científica em periódicos, que faz com que muitos professores universitários se dediquem mais às atividades de pesquisa do que às atividades de docência e de extensão comunitária. A produção de material didático também deveria ser uma preocupação dos docentes, mas essa produção não é valorizada, além de não existirem muitos veículos para publicação de divulgação do material didático produzido por professores.

Rea.net.br: Alguma consideração final?
Prof. Eduardo: Eu acredito que a BDC atinge os objetivos a que se propõem. A BDC tem uma grande importância para compartilhar um conhecimento que é desenvolvido na universidade, mas que ainda não é muito valorizado no mundo acadêmico Não sei se é um modelo a ser seguido, pois além de ser um ambiente de publicação de conteúdos digitais, a BDC também é um ambiente de pesquisa, foi desenvolvido para ser um ambiente colaborativo e permite vários mecanismos de interação com usuário. A BDC é também um ambiente de pesquisa. Sendo desenvolvida por uma equipe de pesquisadores da área de tecnologia educacional, a BDC também permite a coleta de informações para desenvolvimento de softwares e de abordagens mais efetivas do uso de informática na educação. O que acho que deveria existir seria um portal agregador de iniciativas como a BDC, como o BEN Portal nos EUA, por exemplo.

07/06/2010 at 13:41 Deixe um comentário


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